Quarta-feira, 24 de Maio de 2006

estou com pouco tempo, mas vou acrescentar mais assuntos...

Acho este parte do text de Alberoni Fabulosa, não acham?

 

O BARULHO
 
Porque é que nestes últimos anos se fala de boas maneiras e se lêem livros sobre o assunto? Apenas porque anteriormente havia uma cultura de esquerda e hoje há o refluxo e o reaganismo? Não creio. Os fenómenos culturais surgem de causas profundas, de transformações estruturais da sociedade, mudanças de economia e de classes. A mim parece-me que o interesse pelas boas maneiras e pela vida social é a consequência de um significado diferente do corpo e este, por sua vez, da passagem de uma sociedade industrial, dominada pelo trabalho manual, a uma pós-industrial, dominada pelo trabalho intelectual e pelos serviços.
Para examinar o problema tomemos, como exemplo, dois ambientes sociais completamente diferentes.
O primeiro é um bairro onde apenas vivem trabalhadores manuais. O segundo uma zona habitacional da burguesia rica e intelectual. Pensemos num dos bairros de Nápoles, ou em certas casas populares tradicionais e para segundo, num condomínio de luxo, com a relva cuidada sobre a qual as crianças podem brincar.
A primeira coisa que se apercebe no primeiro é o barulho. Todos os rádios estão em alto volume, as casas com as janelas abertas.
Todos podem ouvir o que acontece no apartamento vizinho. Não apenas porque são finas, mas também porque todos os sons são mais altos, não controlados. A mãe que ralha com o filho, que discute com o marido, que acusa. Os rumores violentos dos objectos atirados ao chão. A porta que bate com força os passos ribomba no tecto, as marteladas. Ninguém pensa que os seus actos possam perturbarem os outros. Se alguém protesta, respondem-lhe secamente que, na sua casa, faz aquilo que quer. Mas também que protesta não se comporta de forma diferente. Logo para começar fá-lo a gritar. Depois, se encontrar o vizinho no patamar, discute animadamente de forma que todos o ouçam. É como se quisesse fazer ouvir, quisesse assinalar aos outros a sua presença, e, se protesta, é apenas porque se sente excluído. De tal forma isso é verdade que, quando é convidado a entrar, esquece imediatamente os seus desejos e também ele se junta ao barulho da casa. Como quem é admitido numa festa onde se canta e se dança. Esquece a cólera e também ele canta e dança.
Que quer dizer tudo isto? Que essas pessoas são incivilizadas? Nada disso. Apenas que afirmam a sua existência por meio de certas actividades corporais barulhentas, que comunicam através delas. Por outro lado, encontramos um comportamento análogo entre os rapazes de todas as classes sociais. Mesmo os filhos dos ricos, que quando estão na rua, se movimentam em grupos barulhentos, gritam e gesticulam. A rapariga, aflorada por brincadeira, lança um berro. Dois rapazes simulam uma luta violenta, exagerada, ou então andam em motos sem escape, com um ruído lacerante que os assinala à distância de quilómetros, que atravessa os vales, que corta o silêncio da montanha.

Esse comportamento provém da impaciência que o rapaz dá ao corpo e à fisiologia as todas as suas manifestações. A moto não é apenas um meio de transporte, mas um instrumento para assinalar a sua existência e para se alargar fisicamente. Aquilo que assemelha os jovens aos trabalhadores manuais é a centralidade do corpo. Para quem faz pesados trabalhos físicos, o corpo é o instrumento mais importante. Quanto mais o seu corpo é forte, maciço, poderoso, mais feliz se sente.

....................

Comentem.

sinto-me: Preciso de dias de 48 horas
publicado por meirelesagora às 00:13

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8 comentários:
De frasimoesster@gmail.com a 29 de Maio de 2006 às 01:54
Olá meu amigo É gratificante saber que ainda existe alguém que se preocupa em passar um pouco do que aprendeu ( gratuitamente ), àqueles que sabem valorizar as coisas boas que a vida nos oferece. Obrigada por seres quem és, obrigada por existires. Dinha
De frasimoesster@gmail.com a 29 de Maio de 2006 às 12:48
Fantástico meu amigo!!
Eu diria que as pessoas são carentes, sentem necessidade de serem vistas, notadas, e para isso, agem como se tivessem a fazer um apelo.
Não gosto do falar alto em público porque aprendi que precisamos educar o "ouvido" para ouvir e a boca para falar.
Dinha
De neca a 1 de Junho de 2006 às 01:25
olá meireles
estive a ler os textos e não haja dúvida que, fiquei a pensar, na tua razão.
espero que tenhas bastante tempo para continuar.
numa coisa penso poder falar um pouco, pois tenho como sabes algumas preocupações no mesmo sentido em que expôes.
se é certo que a deslocação de pessoas no pais por agregações e desagregações faz com que as pessoas procurem novos contex-tos para se reencontrar, muitas das vezes um caminho duro, parece-me poder opinar, ele, o caminho é pacificador da massa .
Que ele te ajude como para mim desejo.
Adeus até amanhã.
tentei corrigir os erros ortográficos se passou algum rectifica, isto de trabalhar com mais de um tipo de teclado traz cá cada dissabor
cumprimentos

De Joana a 2 de Julho de 2006 às 21:40
Admiro a sua maneira de ser e a sua atitude perante problemas e assuntos sérios. A sua presença na associação é uma mais valia para todos nós, agradeço a sua dedicação e espero poder interagir (bem) com a sua pessoa e com a nossa equipa para que todos juntos possamos fazer de Vila D'Este uma melhor comunidade e um melhor cantinho para o nosso aconchego. P.S. Obrigado pela sua passividade em relação ao Sr. Guimarães e obrigado, também, pelo seu gesto "caridoso" :)... Com os melhores cumprimentos me despeço Joana Oliveira
De meireles a 11 de Julho de 2006 às 22:35
o meu privilégio não é a idade, mas sim já ter apanhado muito e ter a noção que ainda tenho muito que aprender . obrigada
De MEIRELES a 11 de Julho de 2006 às 22:31
eu sei eu sei que estou a demorar para fazer mais artigos... a partir do fim do mês vou começar a trabalhar no blog, está bem?
De manuel canelas a 2 de Novembro de 2006 às 15:48
Parece poder afirmar-se que sempre vivemos ou podemos viver em aglomerados e conglomerados habitacionais, desde os primórdios, eis porque tendo em dar-te razão quando perguntas objectivamente: que mais dá fazer ou não barulho, se barulho não conduz mas pode facilitar a comunicação;
O buzilis da questão está no tipo de comunicação que temos, cada qual tem o que parece merecer.
Rectroprespectivando:
Os nossos avoengos quando habitavam:
- Os castros tinham ao que parece problemas relacionais pois andavam sempre a procurar uma forma fácil de se defender com eficácia e eficiência;
- Mais tarde quando habitavam as suas quintas, faziam-nas com muros altos para se protegerem dos intruzos e indiscretos;
- Ainda mais tarde começaram a viver em comunidades restritas, a que se convencionou chamar ilhas, devido ao que parece aos escassos recurços e à necessidade de se ajudarem ou defenderem "como queiras entender as rivalidades entre ilhas ou bairros";
- Mais recentemente começamos a enlatar-nos no que se convencionou chamarem-se pomposamente urbanizações, não raro se pode perguntar onde está, na genarilade a urbanidade, e se não fossem meia duzia de carolas, tentarem nivelar por cima, onde estaria a mesma dita urbanidade?;
- hoje, como dizes com carradas de razão, ou porque o ego determina, ou por medo, ou por precaução voltamos à idade antanha em que as pessoas se aglumeram por afinidades, às vezes dispares, aglomeramo-nos em condomínios fechados, em creches, centros de dia, lares para idosos e outros meios conducentes " os seus castelos fortificados " para nos defendermos objectivamente ou subjectivamente nos nossos interesses, "que insanidade?, penso eu ".

Será? - a pergunta que te deixo - que a moda não vai passar e dentro em algum tempo estão as entidades competentes ao tempo a mandar destruir as urbanizações e os condomínios fechados, pelas mesmas razões de que hoje, confessadas ou não, eliminam as ilhas.
- Quem Meireles ( há defacto quem olhe pela segurança das pessoas das ideias e das coisas ) será que há-de impor o respeito no tempo e a destempo.
- Qual a tua opinião?
Do teu amigo manel
De bighouse83@sapo.pt a 16 de Fevereiro de 2007 às 00:42
estou à espera

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